domingo, 23 de outubro de 2011

Inexplicavel... Intolerável...

Assisti ontem ao video onde uma menina Chinesa era brutalmente atropelada, uma e outra vez, sem que ninguém que por ali passava tivesse o decoro e a caridade de a ajudar. Foram quase 10 minutos de uma dureza impressionante, de uma frieza arrebatadora. Muito triste. Muito triste saber que se atropela alguém com aquela facilidade como se nada se tivesse passado. Muito triste saber que numa sociedade actual passa-se ao lado do sofrimento como se nada fosse connosco. Muito triste saber que o egocentrismo bacoco e mesquinho domina já o pouco que resta da interacção e entreajuda humanitária. Estão abertas as hostilidades. Agora é cada um por si. Sem ajudas, sem auxilios, sem nada...


Não foi isto que idealizei quando comecei a compreender o Mundo. Não foi esta forma de actuação que os meus pais me ensinaram quando, menino de tenra idade, lhes perguntava como agir com os outros em caso de necessidade. Não me reconheço nesta sociedade impiedosa, dura e brutal. Não quero que a minha filha cresça acompanhada por esta nova forma de estar social. Não quero nada disto. Onde pára a caridade, a ajuda, a piedade entre os Homens? Onde está o nobre sentimento da paixão humanitária? O abismo mora mesmo ao lado e caminhamos perigosamente para bem perto dele, num caminho cada vez mais obscuro e sinuoso.


Debaixo daquelas rodas crueis morreu tudo, os sonhos de uma criança feliz, as espectativas de uma vida futura, os projectos idealizados mas nunca concretizados. Morreu a esperança, o amor. Destruiu-se uma familia. Marcou-se com sangue toda uma sociedade. Debaixo daquelas rodas ficou tudo. Mas nasceu também a indignação e uma onda de solidariedade quase sem paralelo. Que a morte desta pequena heroina não tenha sido em vão. Que as consciências tenham sido tocadas e despertadas. Por ela e por todas as pequenas crianças violentadas sejamos humanos, sejamos grandes, sejamos humanistas. Deixemos o nosso umbigo de lado, deixemos o nosso egoísmo de parte. Há todo um mundo em decadência à nossa volta e urge começarmos a mudar mentalidades. Hoje é sempre. Amanhã pode ser tarde, muito tarde.
Forte abraço,
Miguel Curvão

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Filhos de uma vida menor...

Desafiado a escrever sobre um tema deveras complexo, o abandono dos filhos por parte das mães, aceitei. Mas com condições. O tema não é objectivo, muito menos rectilineo, permite-nos observações perigosamente subjectivas e corremos o risco de pôr o coração a falar mais alto que a razão, entrando nós depois pelo sinuoso caminho da injustiça pessoal.
Há mães que matam os filhos. Ponto final. Do ponto de vista da justiça é crime punível com prisão efectiva e contra isso nada a apontar. Do ponto de vista social é algo aterrador, mexe com as massas, promove a revolta popular e contra isso, nada me espanta. Mas é o ponto de vista pessoal, vindo de dentro de quem mata, que raramente é analisado e muitas vezes se revela como crucial para percebermos o porquê da tomada de tão medonha atitude. Antes que pense que desculpo, de antemão, tamanha atrocidade contra indefesos seres, desde já esclareço que não. Ofensas corporais contra quem não se pode defender, além de cobardia, revela um latente atraso ao nivel da consideração pela vida humana. Mas nestes casos nunca se fala do pai, nunca se fala da familia, nunca se fala da sociedade envolvente ao meio onde o crime é protagonizado. A mulher, quando engravida erraticamente, fica automaticamente só, perigosamente abandonada. Em todo este processo começa por ser a primeira vitima. Perde na relação paternal, esconde-se da sociedade, sempre sedenta de mais um "dito" para poder difamar. O pai, muitas vezes, em vez de sossegar e incentivar a mulher a ter e criar a criança, remete-se a uma especie de terror psicológico, ameaça o terminar da relação se a criança nascer, foge muitas vezes com o medo de tão nobre compromisso. De um momento para o outro a mulher, a primeira vitima, repito, fica sozinha e entregue à sua sorte. E é aqui que começam os esquemas complexos mentais, as divagações, as formas de tentar resolver as coisas sem magoar minimamente quem nos rodeia. Podemos mesmo dizer que são nove meses alucinantes, de dor e amargura, de sofrimento e infelicidade, que culminam com o nascimento da segunda vitima, o bebé. Vítima de nove meses de esquemas, este pequeno ser é marcado à nascença com o terrivel crivo da morte. Invariavelmente. A mulher, justamente, paga pelo seu crime. Quem nada fez para que este cenário acontecesse, embora recolhece indicios para tal, passa impune, sempre. Na hora de prestar contas à justiça o pai não é tido nem achado no processo mas quer-me parecer que a criança não foi feita sozinha. A sociedade que durante nove meses fingiu nada se passar aponta o dedo persecutório, acusa e reprova, como se não fosse nada consigo. Terrivel, ingrato e sempre com as mesmas vitimas.
Pelas crianças, pelas mulheres, por todos nós: estejamos mais atentos e sejamos mais humanos. Basta um gesto, uma palavra, um conforto para que uma vida se salve. Não custa nada. Apenas atenção.

Forte Abraço,
Miguel Curvão

domingo, 9 de outubro de 2011

Fome ou a novel forma de vida...

Embalado pelo espirito dos últimos dias, em que as saudades e nostalgias passadas ocuparam parte substâncial das minhas memórias, dei comigo a pensar naqueles que, mesmo sem dor fisica, vivem no limiar abaixo do expectável para o normal decorrer da vida. Pessoas que sofrem pela pressão de pouco ou nada terem para comer, de pouco ou nada terem para dar aos seus filhos. E se este tipo de imagens eram tipicas dos países Africanos ainda há poucos anos atrás, neste momento difundem-se e encontram-se um pouco por todo o Mundo, um pouco por toda a parte. A nova organização da Economia mundial e consequente divisão assustadora entre ricos e pobres redimensionou a denominada "classe média" numa nova escala, estando esta agora num plano diferente daquele em que se encontrava não há muito tempo. Em todo o caso, seja em Africa seja na Europa, Asia ou América, fome é fome, e a forma como a abordamos e tentamos combater deve ser igual e homogénea. Imagens de pequenas crianças de tenra idade, magrinhas e tristes, de olhares distantes e desenganados, quase que implorando por um carinho, sem a minima perspectiva de futuro deveriam já fazer parte de um passado eterno. Fotografias de mães com o desespero espalhado no rosto por nada terem para administrar aos seus filhos, não deveriam sequer existir. Miúdos tristes, moídos pela força da guerra, agarrados a um pequeno pedaço de pão como se de um belo manjar se tratasse, deveria ser cenário morto, acabado e enterrado numa sociedade global que se auto-intitula de amiga e solidária. Mas não, arrastam-se ao longo das gerações, invadem as nossas casas a um ritmo quase diário, como se de um problema sem solução se tratasse. Não fosse o homem tão ganancioso e o problema teria sido irradicado há muito mas falta vontade, falta sentido de estado a quem tem por missão governar mas teima em proteger os lucros de quem, em teoria, sustenta a economia caseira. Mete-me nojo, muito nojo, este tipo de gente, que de forma irresponsável e involuntária é assassina de gente que outra coisa não fez senão ter a "culpa" de ter nascido no país errado, à hora menos conveniente... Por acaso alguém tem a noção de quanto custa uma explosão ocasional, num qualquer teste nuclear, perdido nas profundezas de um qualquer oceano? Custa tantos milhões de euros ou dolares que seriam mais que suficientes para erradicar de vez este verdadeiro flagelo qua assola e deveria fazer corar de vergonha a dita sociedade global.
O banco alimentar contra a fome divulgou há dias que o numero de pessoas a quem prestam auxilio aumentou em mais de 30 por cento. Por outro lado, a Cáritas e as Santas Casas da Misericórdia também divulgaram numeros assustadores de gente que a eles recorrem para poderem forrar o estomago com o minimo exigivel para se manterem sãos. É a crise e as suas nefastas consequencias a começarem a espalhar as suas raízes. É a falência total do Estado Social em todo o seu explêndor. É a dura conclusão do ser Humano que, a partir de agora, terá que se desenrascar sozinho. Não há dinheiro para nada, nem sequer para a vida. Em Africa o homem sempre foi refem da ganancia de quem governa, cenário que se foi arrastando décadas após décadas... no mundo dito desenvolvido são os bancos que tomam de assalto as debéis economias familiares, arrastando as pessoas para a tal "novel forma de vida": a ditadura económico-social de quem investiu e agora vive preso a uma divida que não sabe como nem quando estará saldada. Apenas sabe que até lá as dificuldades serão a terrível companhia do dia-a-dia...