Desafiado a escrever sobre um tema deveras complexo, o abandono dos filhos por parte das mães, aceitei. Mas com condições. O tema não é objectivo, muito menos rectilineo, permite-nos observações perigosamente subjectivas e corremos o risco de pôr o coração a falar mais alto que a razão, entrando nós depois pelo sinuoso caminho da injustiça pessoal.
Há mães que matam os filhos. Ponto final. Do ponto de vista da justiça é crime punível com prisão efectiva e contra isso nada a apontar. Do ponto de vista social é algo aterrador, mexe com as massas, promove a revolta popular e contra isso, nada me espanta. Mas é o ponto de vista pessoal, vindo de dentro de quem mata, que raramente é analisado e muitas vezes se revela como crucial para percebermos o porquê da tomada de tão medonha atitude. Antes que pense que desculpo, de antemão, tamanha atrocidade contra indefesos seres, desde já esclareço que não. Ofensas corporais contra quem não se pode defender, além de cobardia, revela um latente atraso ao nivel da consideração pela vida humana. Mas nestes casos nunca se fala do pai, nunca se fala da familia, nunca se fala da sociedade envolvente ao meio onde o crime é protagonizado. A mulher, quando engravida erraticamente, fica automaticamente só, perigosamente abandonada. Em todo este processo começa por ser a primeira vitima. Perde na relação paternal, esconde-se da sociedade, sempre sedenta de mais um "dito" para poder difamar. O pai, muitas vezes, em vez de sossegar e incentivar a mulher a ter e criar a criança, remete-se a uma especie de terror psicológico, ameaça o terminar da relação se a criança nascer, foge muitas vezes com o medo de tão nobre compromisso. De um momento para o outro a mulher, a primeira vitima, repito, fica sozinha e entregue à sua sorte. E é aqui que começam os esquemas complexos mentais, as divagações, as formas de tentar resolver as coisas sem magoar minimamente quem nos rodeia. Podemos mesmo dizer que são nove meses alucinantes, de dor e amargura, de sofrimento e infelicidade, que culminam com o nascimento da segunda vitima, o bebé. Vítima de nove meses de esquemas, este pequeno ser é marcado à nascença com o terrivel crivo da morte. Invariavelmente. A mulher, justamente, paga pelo seu crime. Quem nada fez para que este cenário acontecesse, embora recolhece indicios para tal, passa impune, sempre. Na hora de prestar contas à justiça o pai não é tido nem achado no processo mas quer-me parecer que a criança não foi feita sozinha. A sociedade que durante nove meses fingiu nada se passar aponta o dedo persecutório, acusa e reprova, como se não fosse nada consigo. Terrivel, ingrato e sempre com as mesmas vitimas.
Pelas crianças, pelas mulheres, por todos nós: estejamos mais atentos e sejamos mais humanos. Basta um gesto, uma palavra, um conforto para que uma vida se salve. Não custa nada. Apenas atenção.
Forte Abraço,
Miguel Curvão
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