sábado, 23 de julho de 2011

Porquê?

Ontem um dos mais pacificos países Europeus assistiu incrédulo a uma verdadeira chacina humana. Inquietante, estridente, terrivel, morbido, irreal... Aquela bomba abalou Oslo e o Mundo, aqueles tiros, certeiros, cravaram de dor e revolta toda uma geração sedenta de respostas para tal maléfico acto. Milhares de palavras poderiam ser ditas nesta hora de luto, milhões de expressões poderiam tentar minimizar os efeitos de tão tresloucada atitude. Discursos apaziguadores poderiam ser adoptados. Mas não. O que não tem explicação não tem que ser explicado. Simplesmente. Dezenas de vidas destruidas. Centenas de familias arrasadas. Milhares de pessoas abaladas. Todo um mundo de sentimentos e sensações, turbilhões de emoções que de repente, do nada, emergiram da forma mais fria, mais dura, mais cruel... Por isso nada do que poderemos dizer trará o que as vitimas verdadeiramente querem: respostas. Assim, calo-me. Farei do silencio a melhor das melodias para tão terrivel acontecimento. Ciente que o tempo tudo apaga... Oslo, sempre contigo.

domingo, 17 de julho de 2011

Cidadãos diferentes...

Sou pai há cerca de um ano e acreditem que é a melhor das sensações pelas quais um ser humano pode passar. No entanto, todo o percurso que culminou com o nascimento da minha filha foi bastante duro e teve, inclusivamente, algumas partes bastantes penosas. Aos quatro meses de gravidez, o rastreio bioquimico para trissomia21 deu positivo. As probabilidades da Matilde nascer com este problema genético eram substancialmente mais elevadas que o normal pelo que fomos confrontados com dois cenários: Ou a execução de uma amniocentese, exame de rastreio pré-natal que despistaria com muita exactidão esta possibilidade, dando-nos a possibilidade de optar por uma interrupção da gravidez ou deixar passar o prazo legal para isso, deixar a amniocentese de lado, que, entre outros efeitos secundários pode provocar o aborto, e esperar por uma ecografia morfológica às 22 semanas de gestação que nos daria a certeza quanto ao cenário traçado, sem possibilidade de fazermos mais nada.
Acreditem que a escolha não foi dificil, as consequências dessa escolha é que nos deixava muito preocupados. Nunca, em momento algum, nos passou pela cabeça acabar com a vida da Matilde. Como seriamos capazes disso se o seu nascimento era aquilo que mais desejavamos? A possibilidade do aborto nunca se colocou. Em defesa da vida. Optamos então pela ecografia morfológica, que mais não ia fazer senão dizer-nos se a nossa Matilde nasceria, ou não com trissomia21. Foram semanas terriveis, noites mal dormidas. Uma terrível guerra psicológica travada ao nivel do pensamento, sonhos versus pesadelos numa co-habitação nada perfeita... E porquê? Para quê tantas dúvidas numa hora daquelas se a vida estava sempre e só em primeiro lugar? Porque a nossa sociedade não sabe tratar os nossos deficientes. A nossa sociedade coloca-os de parte, faz questão de lhes lembrar, hora após hora, dia após dia, que são diferentes e que é nessa diferença que têm que viver o resto das suas vidas. Porque a nossa sociedade preocupa-se mais com meia dúzia de casamentos reais ou com os escândalos de índole sexual ou politica de meia dúzia de personas famosas da nossa praça do que com o bem estar destes cidadãos que nada mais fizeram senão nascer como todas as pessoas deste mundo. Revoltava-nos o facto da nossa menina vir a ser marginalizada, olhada de canto na rua, vetada ao abandono em situações de necessidade extrema. Revoltava-nos o facto da nossa Matilde vir a chorar, sozinha, lágrimas de solidão. Revoltava-nos o facto da nossa Matilde se sentir num beco sem saída, numa sociedade injusta, gananciosa e cruel.
À Matilde, nossa vida e nossa luz, nunca faltaria da nossa parte afecto e carinho. Teria todo o amor e ternura essenciais a uma criança de tenra idade. Seriam proporcionadas da nossa parte todas as atitudes para crescer em ambiente equilibrado de harmonia a felicidade. Mas este trabalho de base, de anos e anos de esforço e dedicação, desmoronar-se-ia como um castelo de cartas quando a Matilde tivesse de enfrentar o mundo real e isso revoltava-nos.
Veio o dia da ecografia e os nervos estavam nos píncaros. Tudo correu bem. Deu negativo. Confesso o meu alívio. Egoísmo da minha parte? Nada disso. A pura da constatação de que a nossa sociedade não está preparada para o cidadão deficiente. E enquanto esse cenário não mudar confesso que me assusta a idéia de ter que assumir tamanha responsabilidade ao longo da minha vida.

Abraço do tamanho do mundo e votos de um excelente domingo,
Miguel C.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Terrorismo de fato e gravata

A recente desclassificação da economia Portuguesa por uma das empresas de rating causou perplexidade por esse Mundo fora. De facto, tratou-se de uma medida desproporcionada, injusta, vergonhosa, totalmente desprovida de sentido, muito menos de bom senso. Momentos houveram em que tal atitude seria minimamente aceitável, passámos por uma crise politica, com a queda do governo e novas eleições, o que causaria a desconfiança de investidores e credores do Estado. Mas, pese embora esses factores, a classificação Nacional lá ia oscilando sem nunca cair verdadeiramente. Agora, esta semana, depois de uma cimeira de Bruxelas onde o novo governo mereceu os mais rasgados elogios pela vontade demonstrada em virar o rumo aos acontecimentos e dois dias após a mesmo governo anunciar uma medida extra para equilibrio das contas públicas, somos brindados com esta pérola norte-americana, uma verdadeira seta que atingiu de forma certeira o coração de um país de si já moribundo. O timing para isto não é inocente e apenas vem confirmar aquilo que já de há muito se falava em off: As débeis economias Europeias (casos de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia) estão a ser vitimas de uma verdadeira guerra do Dolar face ao Euro. Se não, como se justifica o facto de ser precisamente quando o país se começava a estabilizar para se dar uma rasteira desta natureza e fazê-lo cair novamente? Porque razão são as empresas de rating Norte-Americanas a tomar o controlo das principais praças de investimentos à escala planetária? Porque é que a Europa e o BCE assistem a esta verdadeira tentativa de assassinato económico impávidos e serenos como se não fosse nada com eles? Será que ainda não entenderam que o enfraquecimento destas praças Europeias funcionam como forma de ataque à moeda unica e consequentemente ao enfraquecimento do mercado Europeu face ao Norte-Americano? Tantas, tantas questões se levantam... O que é certo é que o nosso país, fruto de décadas e décadas de maus investimentos e gestão se encontra num buraco e, em vez de nos darem a mão, ajudarem-nos a saltar para fora dele e assim continuarmos a dura caminhada rumo à estabilidade económica e financeira, as grandes potências financeiras Mundiais, munidas de pás e picaretas, ainda nos empurram mais terra para cima até ao enterro final. E nós, feitos otários, ainda os recebemos no nosso país, numa cimeira mais que duvidosa, que supostamente seria para dar a paz ao Iraque mas que na realidade serviu para esse mesmo país, os EUA, demonstrarem mais uma vez a arrogância e o autoritarismo, tipicos de quem tem a mania que é dono e senhor do Mundo.
Já não bastava a classe politica que actualmente prolifera no nosso país e ainda temos que levar com as políticas traiçoeiras dos outros... realmente, um azar nunca vem só e assim resta resignarmo-nos à nossa sorte e esperar que dias melhores nos acompanhem.

Um abraço do tamanho do Mundo,
Miguel C.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A turma do Fausto

Sem muito para dizer, cansado de um fim-de-semana deveras desgastante, permitam-me que neste post de hoje preste uma pequena homenagem à mais fantastica turma da qual tive o prazer de fazer parte até aos dias de hoje.
Muito sinceramente, quando iniciei o meu percurso EFA e deparei com a turma fiquei algo apreensivo. Afinal, mesmo tendo apenas 30 anos, nada excessivos quando o curso é para adultos, a turma era bastante nova, de faixa etária baixa, o que me levou a pensar que seria tremendamente dificil integrar um grupo com outro tipo de mentalidade e vivências diferentes da minha geração. Nada mais errado. Bastou uma semana para me aperceber de tamanho erro de apreciação. A turma era boa, dinamica, algo rebelde mas com uma tremenda capacidade de trabalho e entreajuda. Combinava quase na perfeição experiência com juventude, os extremos etarios completavam-se de uma forma tão harmoniosa quanto pedagógica. As sessões de formação eram livres, orientadas por um determinado tema, mas que nos levava muitas vezes a trocas saudáveis de opiniões. Os membros "menos jovens" brindavam-nos com fabulosas histórias de vida e nós bebiamos daqueles conhecimentos com uma vontade quase voraz. Por muito estranho que isso possa parecer, depois de um desgastante dia de trabalho, aquelas sessões tinham o condão de nos relaxar e preparar para novo dia que aí vinha. E sempre, sempre a aprender.
Claro que nada disto seria possivel se não houvesse uma equipa de formadores de grande nivel e, também eles, com grande capacidade de trabalho e ajuda. Formadores de enorme coração que além de padagogos eram acima de tudo seres humanos, sensiveis às nossas dificuldades e problemas muitas vezes pessoais. Amigos para a vida, assim os considero, pois sei que estarão sempre lá sempre que necessário.
A minha homenagem a esta turma (e quando digo turma estou a incluir colegas, formadores e mediadora) tem um motivo especial. Quando há muitos anos deixei abruptamente de estudar, fui perdendo lentamente o gosto pela aprendizagem, pela escrita, pela leitura. Tudo na altura deixou de fazer sentido e não tive ponta por onde me agarrar, numa vida completamente à deriva. Vivi muitos anos fechado num universo só meu, substimado pela força do trabalho como forma irreversivel de continuar com a vida em frente. Deixei de confiar nas minhas capacidades e atirei para a lama a minha auto-confiança. Até à uns meses atrás. Quando este grupo fantástico conseguiu extrair de mim novamente todo um potêncial que eu pensava há muito perdido. Fez crescer novamente em mim esta capacidade de querer e dizer, passar para o papel toda uma panóplia de emoções e sentimentos, muitas vezes comandados pelo coração. Hoje sinto-me auto-confiante, plenamente convencido das minhas capacidades e altamente capaz de comandar novamente a minha vida, com todos os sonhos e ilusões que isso acarreta, com todas as alegrias e tristezas que isso possa vir a trazer. Mas se não arriscar nunca ficarei a saber se serei bem sucedido, ou não?
Muito obrigado a todos por me terem tornado um pouquinho melhor do que aquilo que eu era ontem.

Um abraço do tamanho do mundo,
Miguel C.

sábado, 2 de julho de 2011

Vida...

Boa noite, noite fresca mas acolhedora que convida à escrita e reflexão. Desta vez ao som de Beethoven e da sempre inspiradora "Moonlight Sonata", porque a música em mim tem todo o efeito catalizador de algo que se quer dizer mas que custa a transmitir, música que em toda a minha vida teve papel fulcral, fundamental, vital nas escolhas, nas alegrias, tristezas e frustrações. Acompanhou-me no alto e no baixo, esteve sempre lá, fosse para me animar quando algo corria mal, fosse para me transmitir aquela "pitada" de realismo quando avançava perigosamente rumo ao excessivo estado de confiança...

Vida... palavra tão pequena mas ao mesmo tempo tão grande, gigante, no seu sentido, na sua compreensão. O que é a vida? todo um conjunto de experiências vividas, conseguidas, falhadas ou perdidas. Um enorme tabuleiro de xadrês onde somos sempre convidados a jogar a peça ideal para o momento mais indicado. Um gigantesco puzzle onde para cada peça corresponde o seu par ideal para atingirmos a plenitude existencial. Um grande rio, que apesar dos obstáculos corre invariavelmente até ao seu objectivo, a foz... Para se ser feliz ao longo da vida não basta viver. É preciso amar, lutar, rir ou chorar. Sentir, pegar e abraçar. Fazer de cada momento uma experiência e de cada experiência um objectivo. De cada objectivo um ideal e de cada ideal uma conquista. Crescer com as vitória e amadurecer com as derrotas. Fazer de cada momento mau uma lição rumo à sensatez plena e ao vivencial perfeito. Abrir o coração ao mundo, deixar a frieza de lado. Corar quando necessário, chorar se preciso for. Emocionar-se com o sorriso sincero de uma criança, que sem nada para comer ou roupa para vestir, de ti se aproxima em busca de um simples carinho. Parece fácil? Pois... começa a viver, ainda vais a tempo...

Um abraço do tamanho do mundo,
Miguel C.

http://www.youtube.com/watch?v=vQVeaIHWWck&feature=related