Sou pai há cerca de um ano e acreditem que é a melhor das sensações pelas quais um ser humano pode passar. No entanto, todo o percurso que culminou com o nascimento da minha filha foi bastante duro e teve, inclusivamente, algumas partes bastantes penosas. Aos quatro meses de gravidez, o rastreio bioquimico para trissomia21 deu positivo. As probabilidades da Matilde nascer com este problema genético eram substancialmente mais elevadas que o normal pelo que fomos confrontados com dois cenários: Ou a execução de uma amniocentese, exame de rastreio pré-natal que despistaria com muita exactidão esta possibilidade, dando-nos a possibilidade de optar por uma interrupção da gravidez ou deixar passar o prazo legal para isso, deixar a amniocentese de lado, que, entre outros efeitos secundários pode provocar o aborto, e esperar por uma ecografia morfológica às 22 semanas de gestação que nos daria a certeza quanto ao cenário traçado, sem possibilidade de fazermos mais nada.
Acreditem que a escolha não foi dificil, as consequências dessa escolha é que nos deixava muito preocupados. Nunca, em momento algum, nos passou pela cabeça acabar com a vida da Matilde. Como seriamos capazes disso se o seu nascimento era aquilo que mais desejavamos? A possibilidade do aborto nunca se colocou. Em defesa da vida. Optamos então pela ecografia morfológica, que mais não ia fazer senão dizer-nos se a nossa Matilde nasceria, ou não com trissomia21. Foram semanas terriveis, noites mal dormidas. Uma terrível guerra psicológica travada ao nivel do pensamento, sonhos versus pesadelos numa co-habitação nada perfeita... E porquê? Para quê tantas dúvidas numa hora daquelas se a vida estava sempre e só em primeiro lugar? Porque a nossa sociedade não sabe tratar os nossos deficientes. A nossa sociedade coloca-os de parte, faz questão de lhes lembrar, hora após hora, dia após dia, que são diferentes e que é nessa diferença que têm que viver o resto das suas vidas. Porque a nossa sociedade preocupa-se mais com meia dúzia de casamentos reais ou com os escândalos de índole sexual ou politica de meia dúzia de personas famosas da nossa praça do que com o bem estar destes cidadãos que nada mais fizeram senão nascer como todas as pessoas deste mundo. Revoltava-nos o facto da nossa menina vir a ser marginalizada, olhada de canto na rua, vetada ao abandono em situações de necessidade extrema. Revoltava-nos o facto da nossa Matilde vir a chorar, sozinha, lágrimas de solidão. Revoltava-nos o facto da nossa Matilde se sentir num beco sem saída, numa sociedade injusta, gananciosa e cruel.
À Matilde, nossa vida e nossa luz, nunca faltaria da nossa parte afecto e carinho. Teria todo o amor e ternura essenciais a uma criança de tenra idade. Seriam proporcionadas da nossa parte todas as atitudes para crescer em ambiente equilibrado de harmonia a felicidade. Mas este trabalho de base, de anos e anos de esforço e dedicação, desmoronar-se-ia como um castelo de cartas quando a Matilde tivesse de enfrentar o mundo real e isso revoltava-nos.
Veio o dia da ecografia e os nervos estavam nos píncaros. Tudo correu bem. Deu negativo. Confesso o meu alívio. Egoísmo da minha parte? Nada disso. A pura da constatação de que a nossa sociedade não está preparada para o cidadão deficiente. E enquanto esse cenário não mudar confesso que me assusta a idéia de ter que assumir tamanha responsabilidade ao longo da minha vida.
Abraço do tamanho do mundo e votos de um excelente domingo,
Miguel C.
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