quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Instituto Português de Oncologia

Caros leitores, desta vez decidi variar um pouco a escrita e o tipo de apresentação do post. Há já algum tempo que idealizava escrever algo sobre esta grandiosa instituição Portuense mas faltava-me coragem. Receava o reacender de memórias perturbadoras que me marcaram para a vida há uns anos atrás. No entanto, esta semana foi reveladora que não devemos nunca renegar o passado e devemos inclusivamente enfrenta-lo para exorcisar fantasmas antigos.
Silêncio... o tema é complexo e para isso necessitei de alguma investigação e colaboração que me foi preciosamente cedida por parte de algumas pessoas que de perto acompanharam o dia-a-dia desta instituição. Os seus testemunhos são deveras emocionantes e transportam-nos para um mundo à parte que trespassa em larga medida a realidade das nossas vidas.
"Tomei chá com a morte todos os dias...", refere Marisa Silva, 30 anos, casada e mãe de duas filhas. A frase, de tão dura, torna-se cruel. Simples e directa, mostra-nos como a convivência com a morte se tornou parte do dia a dia de quem passa por este tipo de enfermidades. "Vi e senti coisas que nunca pensei ver ou sentir..." refere mais à frente, entre lágrimas perdidas, de quem viu "o chão a desaparecer", aos 30 anos de vida.
"Não há volta a dar, quando se tem uma familia tão chegada e filhos em fase de crescimento, a luta é o caminho viável, o único caminho, sem alternativas...", diz-me Bete Ribeiro, a quem um tumor nas vias nasais quase ceifam uma vida ainda em fase bastante precoce.
"Não suportava ver os meus pais a sofrer. Sabia o que tinha e tinha a perfeita noção que o meu sofrimento retornaria a dobrar para eles. Sofri sozinho e em silêncio, para que não dessem por nada...", adianta Carlos Costa, 20 anos de uma vida já cheia de precalços.
Mas o que têm estas pessoas em comum? Não se conhecem entre elas, mas já partilharam muito entre si. A incerteza da vida, o sofrimento fisico mas principalmente psicológico de vivências feridas quase fatalmente, a luta diária, onde um dia passado era uma vitória na titânica luta da vida contra a morte. Mas uma instituição funcionou como a porta da esperança, a camara dos sonhos, o ultimo depositário de um acumular de pressões e tensões. E neste campo, quando os questiono sobre a papel de quem lá trabalha e a influência que tiveram na sua recuperação são unanimes: "Excelentes!""Salvaram-me a vida!" e "Guardo-os para sempre no meu coração!", são as frases soltas que revelam em todo o seu explendor o verdadeiro trabalho humanista desenvolvido por quem tem por missão salvar vidas.
A realidade do espaço é ambigua. Basta lá entrar para se sentir no ar o cheiro inconfundivel do sofrimento. Entre as inumeras paredes emana-se de forma inconsciente estranhas formas de vida onde o desespero toma de assalto a mente dos mais cepticos e a esperança sobressai no espirito dos mais corajosos. De forma pacifica convive no mesmo espaço fisico a esperança e a dor, o desespero e a capacidade de vitória. O bem e o mal. Mas em todo o caso há sempre um sorriso, uma mão amiga, uma palavra de aconchego. Uma caricia, um querer estar sempre presente, um ombro amigo para se descarregar todas as incongruências da vida. Por parte de quem lá trabalha, e digo-o por experiência própria, nunca falta apoio, nunca falta nada. Interiorizou-se naquelas mentes santas o sentimento de entreajuda aos mais necessitados, a quem a vida já foi cruel de mais e por isso o abandono ou desprezo funcionaria como a mais terrivel das armas para tão terrivel mal.
Os três casos atrás apresentados tiveram como desfecho comum a cura. Felizmente. E são casos como aqueles que dão mais e mais força a todos os profissionais que trabalham nesta área. Sabem que vai sempre alguém perecer ás garras assassinas da morte mas basta uma pessoa se salvar para se sentirem realizados no seu trabalho e encararem os restantes casos com esperança. Sei que assim é sem precisar de falar com nenhum deles. Basta lá irem e verem o empenho e dedicação que empregam em cada caso, em cada pessoa. Nunca dão um caso como perdido e são muitas vezes os catalizadores de esperança quando a mesma já morreu, há muito, nos pacientes. O meu pai faleceu lá mas nunca coloquei em causa o profissionalismo daquela gente pois fui testemunha viva do empenho prestado e senti, inclusivamente, sinais de tristeza latente no rosto do pessoal, quando a morte chegou, como se o meu pai não fosse o unico derrotado mas também eles.
Espero ter prestado a melhor homenagem possivel a todos os anónimos, mas sempre presentes, profissionais de saúde do Instituo Português de Oncologia Francisco Gentil e se mais não disse foi porque as lágrimas de saudade já me escorrem pelo rosto e me toldam o pensamento, de dor por quem já partiu...

Abraço e bem hajam,
Miguel C.

p.s:. Um agradecimento muito especial à Dra Ana Raimundo, do serviço de Gastrenterologia do IPO e equipa de enfermagem e auxiliar. Foram inexcediveis. Um agradecimento também à Marisa, à Bete e ao Carlos pela forma como me ajudaram e engrandecer esta postagem. Vocês são uns lutadores e um exemplo para a vida.

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