Vivemos dias de incertezas, meses de ansiedade... Por culpa de alguns, a corda na garganta aperta a cada dia que passa, num gesto lento mas terrivelmente angústiante. A crise não tem rostos, não tem culpados. A crise não tem origens, não tem identidade, não tem nada... E no meio de tanta crise, no meio desta guerra silenciosa mas letal o povinho, o pequenino, o que trabalha de sol a sol, o que sofre, chora, luta e age, é o que, estranhamente, se sente culpado por ela, pela crise maldita, sem rosto, sem cor, sem nada... Afinal, é ele, o povinho, o responsável pelo seu pagamento. É o povinho que vai ter que trabalhar mais e receber menos... é o povinho que vai ter que ganhar menos e descontar mais... é o povinho que, se tiver a infelicidade de adoecer, qual traição ao Estado soberano, vai ter que pagar mais na consulta, mais nos medicamentos e receber menos em sede de IRS. Pudera, ninguém lhe mandou adoecer... Se o culpado não fosse o povinho não se percebe tanta carga para cima dele, se o culpado não fosse o povinho não se justificaria ter de ser ele a levar com as contas da crise, se o culpado não fosse o povinho, o Estado, soberano e imparcial, não atiraria para cima das suas costas a responsabilidade de equilibrar novamente as suas contas.
Por isso, depois de meses e meses de investigação cheguei a uma conclusão: o povinho, trabalhador e honesto, é o culpado da crise. Não podem ser os senhores da banca, porque esses gerem o nosso dinheiro e fazem lucros monstruosos com ele... não podem ser os senhores da politica, porque perdem de ganhar salários muito bons, sacrificam a sua vida privada, para garantir o normal funcionamento do Estado. Claro que se tudo corre mal e o Estado entra em crise, a culpa não é deles, é do povinho, que foi desonesto e não descontou o que devia e eles, pela meia duzia de anos de excelente trabalho em prol da nação levam uma pequena reforma de alguns milhares de euros mais a garantia de um cargo público de relevo numa instituição qualquer de utilidade publica, mais uma prova que são competentes, logo, acima de qualquer suspeita.
Ironias à parte, e falando de coisas muito sérias, onde param mais de quatro mil milhões de euros do erario público? Quem foi o responsável pela sua delapidação? Quem foram os incompetentes que deixaram essa situação acontecer? Quem roubou o Estado ao seu serviço? O que mais me deixa perplexo nesta situação é o facto de ser o povo a ter agora que arranjar esse dinheiro estando os homens responsáveis por esta situação a gozar de uma bela reforma em casa, supostamente, por terem servido a nação. Se, na minha vida privada, for o responsável pela perda irreparavel de bens por parte de alguém, existe uma figura legal, chamada de "gestão danosa", que me pode mandar para a cadeia... estes gajos não lesam um homem nem dois, lesam toda uma nação e ainda lhes pagam por cima.
Ainda hoje, num tópico do meu amigo Jorge de Sequeira numa rede social, este perguntava se o povo estaria preparado para aguentar as novas medidas de angariação de receita por parte do Estado. Nova subida de impostos sobre bens essenciais. Claro que não, mas também ninguém se importa com isso. Afinal todos temos que comer e beber, temos que ir ao médico, temos que fazer seguros para tudo e para nada... Afinal temos que consumir. Não temos dinheiro? Não importa, o banco empresta, nem que para isso te fique com um terreno ou uma casa, com o qual vai arrecadar mais uns milhares na sua já enorme margem de lucro. Esta roda viva está a trucidar o povo, a rebentar definitivamente com as nossas energias. Já não basta trabalhar para sobreviver, é o laborar a pensar se o mesmo vai chegar para mantar aconchegado o estomago das nossas crianças... Estou preocupado, confesso, porque tenho uma menina de tenra idade para a qual trabalho já mais de 10 horas por dia e não vejo, nem por isso, a conta a crescer. E isto é terrivel, mais que o esforço fisico, é o psicologico deste emaranhado de sentimentos que nos invade no dia-a-dia.
Abraço
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